Safra na Serra Gaúcha tem 80% das vagas temporárias

Estudo detalha o mercado assalariado nas cadeias da maçã e da uva no Rio Grande do Sul. O Sistema de contratação impõe metas exaustivas de colheita e institucionaliza a instabilidade empregatícia no campo.
Safra na Serra Gaúcha tem 80% das vagas temporárias

Safra na Serra Gaúcha tem 80% das vagas temporárias – A formalização do emprego através da carteira assinada nas fazendas produtoras de maçã e uva do Rio Grande do Sul mascara a ausência de garantias aos trabalhadores. Uma pesquisa conduzida pela Oxfam Brasil em atesta que a liquidação quase completa dos vínculos logo após a colheita na Serra Gaúcha espelha a vulnerabilidade estrutural do agronegócio nacional. Os dados regionais refletem um país onde 69,2% da mão de obra opera na informalidade e 52% dos assalariados rurais perdem o acesso futuro à aposentadoria por não contribuírem com a Previdência Social.

As rescisões na região sulista atingem 80,2% da força de trabalho da maçã e 90,2% da uva antes mesmo do encerramento do ano civil. O modelo de negócios concentra as admissões entre janeiro e fevereiro para executar demissões em massa de forma programada em março, configurando uma janela de atividade tão restrita que impede a formação de qualquer histórico de recolhimento previdenciário. O sistema de safras atrai populações historicamente desamparadas, incorporando migrantes do Mato Grosso ou do Paraguai a uma base formada por 21,4% de indígenas atuando diretamente nas lavouras.

“O modelo de gestão empregado na Serra Gaúcha formaliza a instabilidade”, avalia Viviana Santiago, diretora executiva da Oxfam Brasil, ao detalhar que o registro do safrista serve unicamente para extrair sua força máxima em um período curtíssimo. “A atração de indígenas e migrantes para atuar sob frio congelante expõe uma lógica de produção focada no descarte humano imediato após o escoamento dos frutos”.

De acordo com a executiva, é preciso responsabilizar o setor e mudar a forma como o mercado organiza suas contratações. “A precarização surge como resultado de escolhas estruturais das empresas, e romper esse ciclo exige a adoção rigorosa de marcos de devida diligência em direitos humanos ao longo de toda a cadeia de fornecimento. Essa postura deve vir acompanhada de negociações coletivas fortalecidas, que assegurem salários formais competitivos e proteção social efetiva aos trabalhadores durante os longos meses de entressafra”, complementa.

De acordo com o levantamento, a severidade climática da geografia local impõe a manutenção da colheita sob temperaturas que despencam à faixa de -8ºC a -9ºC, condição extrema relatada pelos safristas como responsável por desencadear quadros de congelamento físico e adoecimentos respiratórios agudos. O estudo aponta que, em vez de integrarem as estatísticas de saúde do Estado, essas ocorrências sofrem uma omissão sistemática nos formulários de Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT), invisibilizando a gravidade do cenário real nos pomares. Na análise dos pesquisadores, o esgotamento do corpo submetido a tais intempéries assume proporções críticas ao esbarrar no sistema de remuneração atrelado a metas de produção, uma engrenagem financeira que restringe o tempo de descanso sob a ameaça de perdas diretas no contracheque.

As entrevistas conduzidas pela equipe revelam que, submetidos a essa pressão corporativa, os colhedores são levados a suprimir necessidades vitais, limitando a própria hidratação e o uso de sanitários ao longo de toda a jornada apenas para assegurarem os rendimentos no fim do mês.

O perfil de quem suporta as privações do campo escancara disparidades financeiras atreladas à demografia e à cor da pele. As mulheres ocupam uma parcela de apenas 15,9% na cadeia da maçã gaúcha, exclusão que dialoga perfeitamente com o abismo racial mapeado pelo levantamento em todo o território nacional. As trabalhadoras rurais pretas concentram os piores índices de remuneração da categoria agrícola ao receberem R$1.449,00 mensais em média, valor drasticamente inferior aos R$2.494,00 auferidos por homens brancos que operam no mesmo segmento produtivo.

Safra na Serra Gaúcha tem 80% das vagas temporárias