Enchentes ainda deixam marcas na economia gaúcha

Reação rápida da atividade econômica à época do evento contrasta com setores que ainda não retomaram o patamar anterior à tragédia.
Enchentes ainda deixam marcas na economia gaúcha

Enchentes ainda deixam marcas na economia gaúcha – Em maio de 2024, durante as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul, um estudo elaborado pela Bateleur estimou que seriam necessários entre R$ 110 bilhões e R$ 174 bilhões para reconstruir o estado após a tragédia climática. Dois anos depois, um novo levantamento revisita aquelas projeções e compara os impactos estimados na época com os indicadores econômicos observados desde então.

A mais recente análise da Bateleur sobre os desdobramentos econômicos do episódio aponta que o governo federal afirma ter destinado R$ 112 bilhões ao estado desde as enchentes, com R$ 89 bilhões executados até o momento — embora menos da metade desse valor esteja relacionada a dispêndios destinados à reconstrução da infraestrutura do estado. Segundo o estudo, os recursos contribuíram para sustentar a atividade econômica no curto prazo, com destaque para o setor de construção civil, beneficiado pelas obras de recomposição da estrutura afetada.

Os dados mostram que a economia reagiu acima das projeções feitas no auge da crise. Durante as enchentes, a estimativa indicava retração de 0,77% do PIB gaúcho em 2024. O resultado efetivo terminou em crescimento de 4,9%, sustentado pela coincidência entre uma safra recorde e a injeção de recursos da primeira etapa da reconstrução do estado, que impulsionou a construção civil no curto prazo.

Ao mesmo tempo, o levantamento indica que parte dos efeitos econômicos da tragédia ainda permanece em setores relevantes da economia gaúcha. As atividades turísticas do estado ainda não retornaram plenamente ao patamar anterior à tragédia: entre março de 2024 e fevereiro de 2026, o turismo brasileiro acumulou crescimento de 8,0%, enquanto o Rio Grande do Sul registrou retração de 5,6%.

O cenário também aparece na atividade empresarial. A sequência de quebras de safra que atingiram o estado nos últimos anos e o impacto das enchentes contribuíram para a deterioração da situação financeira do Rio Grande do Sul, o que pressionou a inadimplência, que ultrapassou pela primeira vez a média nacional na série histórica. Soma-se a esse quadro a fragilidade do ambiente de negócios do estado, que ainda tenta recompor o nível de confiança do empresariado.

Segundo Fernando Marchet, e CEO da Bateleur, os números mostram que a recuperação ocorreu de forma diferente entre os setores da economia. “A safra recorde de grãos e a reconstrução inicial pós enchentes permitiram uma reação rápida da atividade econômica no curto prazo, ainda que os indicadores mostrem que alguns segmentos ainda não retornaram ao nível anterior ao evento. Dois anos depois, os efeitos continuam aparecendo em áreas importantes da economia gaúcha”, afirma Marchet.

O estudo também aponta que parte da recuperação observada em 2024 esteve ligada a fatores temporários. Enquanto a safra cresceu cerca de 30% em relação ao ano anterior e a construção civil foi impulsionada pelas obras emergenciais, setores ligados a serviços apresentaram desempenho inferior ao restante do país. Excluindo a agropecuária, o índice de atividade econômica do RS cresceu 2,7% em 2024, abaixo dos 3,8% registrados nos demais estados brasileiros.

Enchentes ainda deixam marcas na economia gaúcha