O turismo das sensações após a catástrofe – Há uma necessidade em observar o turismo no Rio Grande do Sul, em especial no Vale do Taquari, de forma singular após as enchentes catastrófica de 2023 e 2024. Acompanhamos um ritmo crescente na força do turismo regional na última década. E quando chamamos a atenção do mundo, eventos desta magnitude fazem repensar.
Se diversas potencialidades turísticas naturais foram afetadas ou transformadas, isto não se refere apenas à mudança de cenário, devido à destruição das matas ciliares. Mas ao modelo de negócio pensado ansiosamente por muitas pessoas que buscam até hoje a vinda de visitantes e do dinheiro deles.
Em 2013 realizei uma incursão de pesquisador e junto ao jornalista Rodrigo Martini escrevemos o Guia VEM – Vales e Montanhas. Ed. A Hora. 2014. A publicação de 530 páginas e 70 mil exemplares resumiu uma investigação exaustiva e cadenciada em 56 cidades dos vales do Taquari e Rio Pardo.
Realizamos uma espécie de varredura nas cidades, primeiro identificando lugares, conforme nossa visão objetiva de jornalistas, que seriam impactantes para visitantes. Resultou também na missão de catalogar todos serviços de hospedagem e gastronomia. Em cada visita, um formulário era aplicado, tornando possível uma análise tática, quantitativa, macro e uma forma de auxiliar os aventureiros visitantes.
No entanto, o que ficou nos bastidores deste mapeamento das rotas, acessos e infraestruturas, contou mais sobr eo lugar do que podemos descrever. O atendimento dos moradores aos visitantes, a simplicidade, a troca de informações e pontos de vista que possibilitou ampliar o brio e o amor a cada lugar. O tempo foi pouco para tanta informação subjetiva. Em muitas as vezes, os moradores se dispuseram a ir junto nas trilhas, para auxiliar na chegada aos possíveis pontos turísticos, que até então eram desconhecidos. Não haviam placas de orientação, estruturas de acolhimento, acessos e serviços básicos próximos aos pontos.
Contudo, mesmo sem conhecimento, os moradores curiosos faziam questão de ouvir nossas impressões. Havia claramente uma inclinação à receptividade, a saber o que o visitante havia achado daquele lugar. E não raro falavam de histórias que ouviam dos seus antepassados, que preenchiam estes espaços com a grandeza da cultura. Talvez não fosse a intenção dos nativos inserir tais locais em um catálogo de compra e venda. Afinal, tanto àquela época, como agora, o turismo sempre foi muito pensado pela capitalização das sensações.
E após mais de uma década e uma grande enchente, é visível a mudança. Se antes tínhamos que dar nomes às cascatas desconhecidas em lugares inóspitos, hoje, se vendem de forma orgânica no Instagram. Porém, uma pergunta é latente: quantas supressões foram feitas para que esse turismo virasse um negócio?
É imprescindível uma incursão com olhar mais profundo para o turismo pós-catástrofe. Superar este formato que resume o turismo a estruturas de mercado de ‘selfies’ em lugares bonitos. Talvez conhecer melhor a importância do lugar e das pessoas. O turismo de modo geral precisa descontinuar a lógica de servir para aliviar tensões e frustrações acumuladas durante o trabalho no ano, na venda das horas humanas. Se tudo é efêmero, então o que fica são as sensações, das experiências, dos gostos, dos cheiros, da alegria e do que não é passageiro: a cultura e a história.
O turismo das sensações após a catástrofe