Estamos preocupados com a corrupção?

O tema da corrupção tem presença recorrente na mídia. Apesar disso, a preocupação dos gaúchos com a corrupção, ao contrário do que se poderia esperar, não parece ocupar posição central na agenda pública, especialmente no âmbito municipal. Um indicativo claro disso é a total ausência de adesão dos municípios do Rio Grande do Sul ao Programa Time Brasil, iniciativa da Controladoria-Geral da União voltada ao fortalecimento da integridade, da transparência e da prevenção à corrupção nos entes subnacionais. Entre os trinta e sete municípios que registraram adesão nos últimos meses de 2025 não há nenhum gaúcho.
O dado causa estranhamento porque o Estado do Rio Grande do Sul possui legislação própria que torna obrigatória a implementação de programas de integridade nas contratações públicas, sinalizando, ao menos no plano normativo, um compromisso com boas práticas de governança. Na prática, contudo, essa diretriz parece não ter irradiado para os municípios, onde são raras as leis locais que exigem programas de integridade para contratar com o poder público ou que regulamentem de forma efetiva a Lei Federal nº 12.846/2013, especialmente no que se refere à prevenção e à mitigação de riscos de corrupção.
Esse distanciamento entre norma e ação torna-se ainda mais preocupante quando observado em conjunto com o cenário nacional. Em 2025, o Brasil alcançou sua pior colocação histórica no Índice de Percepção da Corrupção, divulgado pela Transparência Internacional em fevereiro de 2026, evidenciando que o discurso anticorrupção não tem sido acompanhado de políticas públicas estruturadas e consistentes.
A corrupção não se enfrenta apenas com previsões legais genéricas, mas com instrumentos concretos de integridade, adesão a programas estruturantes, capacitação administrativa e compromisso institucional contínuo. A ausência dessas iniciativas no plano municipal revela uma lacuna relevante na governança pública local — justamente onde o contato entre Estado e cidadão é mais direto.
Em um contexto de escassez de recursos e elevada demanda por eficiência e confiança, integridade não deveria ser opção política, mas pressuposto mínimo de gestão pública.
Estamos preocupados com a corrupção?