A conta invisível dos juros que todos pagam (e poucos ganham)

A conta invisível dos juros que todos pagam (e poucos ganham)

* Por Thiago Maurique

Mesmo com sinais claros de desaceleração econômica, o país mantém uma política monetária que penaliza a produção, encarece o crédito e alimenta um sistema que transfere bilhões em recursos públicos para o setor financeiro. 

A conta invisível dos juros que todos pagam (e poucos ganham)
Thiago Maurique é jornalista e sócio do Valores do RS

A decisão do Banco Central de elevar a taxa Selic para 15% ao ano reacendeu o debate sobre a política monetária no Brasil. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) definiu a medida como injustificável. Conforme a entidade, o patamar sufoca a atividade produtiva, encarece o crédito e compromete a capacidade de investimento do país. Por trás da indignação do setor produtivo, há uma discussão ainda mais profunda e quase sempre evitada: o peso estrutural dos juros na política fiscal brasileira.

O Brasil tem hoje o segundo maior índice de juros reais do mundo, atrás apenas da Turquia. Mesmo com a inflação em trajetória de queda e sinais claros de desaceleração econômica, o Banco Central insiste em manter a política contracionista. Mas isso não acontece por acaso. A elevação da taxa básica de juros é o principal instrumento para conter a inflação, mas também é o mecanismo que mais transfere recursos do setor público para o setor financeiro.

Essa transferência se dá justamente por meio do pagamento de juros da dívida pública. O ponto central desse debate está no tripé econômico que determina o superávit primário como pilar de sustentação da política fiscal e desconsidera o superávit nominal. O primeiro considera apenas o saldo entre receitas e despesas antes dos juros, enquanto o segundo revela o verdadeiro resultado fiscal, incluindo o custo da dívida.

A conta invisível dos juros

Ignorar o superávit nominal não é uma decisão técnica. É uma decisão política com interesses financeiros. Falar apenas de superávit primário é conveniente para manter o debate restrito a ajustes fiscais em gastos sociais e investimentos, enquanto o custo dos juros permanece fora do radar público. Quem se beneficia desse modelo são justamente os detentores de títulos da dívida — bancos, fundos e investidores, que têm nos juros elevados sua principal fonte de remuneração.

A crítica da CNI à alta da Selic escancara um racha que vem se aprofundando entre o setor produtivo e o setor financeiro. Ainda é pouco diante do tamanho do estrago. Enquanto a indústria pede uma política de Estado que alivie o custo do crédito e permita a retomada de investimentos, o sistema financeiro segue lucrando com a manutenção da taxa em patamares elevados. Hoje, taxa de juros real já supera em quase cinco pontos percentuais o nível considerado neutro pelo próprio Banco Central. O crédito para empresas e consumidores está em níveis proibitivos, enquanto a Faria Lima realiza lucros estratosféricos.

Mas por que essa realidade que prejudica a maior parte da sociedade em benefício de poucos permanece? Parte da resposta está na dinâmica do debate público. O economistas mais ouvidos pela imprensa vêm justamente das instituições que se beneficiam da manutenção dos juros altos. Suas análises pautam a cobertura econômica dos grandes veículos, que também dependem de publicidade do setor financeiro e da circulação de relatórios e projeções que alimentam o noticiário — e o imaginário popular.

É preciso enfrentar o verdadeiro custo da dívida e o modelo que mantém a economia brasileira dependente de uma estrutura que privilegia o capital financeiro em detrimento da produção e do emprego. Enquanto o superávit nominal seguir fora do debate, o Brasil continuará em um ciclo vicioso.

O cenário é conhecido: o governo corta investimentos, a economia desacelera, a arrecadação cai, o risco aumenta e a resposta, invariavelmente, será mais aperto monetário. No final, quem paga essa conta é tanto o setor produtivo quanto a população, empresários e trabalhadores de todos os setores que de fato fazem a economia girar. Enquanto os especuladores prosperam, as oportunidades de crescimento e inclusão social são sistematicamente bloqueadas por uma política econômica que trata a estabilidade financeira como um fim em si mesma — e não como um meio para o desenvolvimento.

A conta invisível dos juros que todos pagam (e poucos ganham)