Burnout cresceu 823% em quatro anos no Brasil

Casos passaram de 823 para 7.595 registros em quatro anos, um impacto econômico estimado em quase R$ 400 bilhões por ano em produtividade, ausências e rotatividade.
Burnout cresceu 823% em quatro anos no Brasil 

Burnout cresceu 823% em quatro anos no Brasil  – O Brasil já registrou 1.528 afastamentos por esgotamento (burnout) só no primeiro trimestre de 2026, segundo dados do INSS – volume que quase dobrou de janeiro (418 casos) para março (723 casos). O número consolida uma tendência que fechou 2025 em recorde: mais de 530 mil afastamentos por transtornos mentais no ano, o maior da série histórica, segundo o Ministério da Previdência Social. Somente os casos de burnout cresceram 823% entre 2021 e 2025, saindo de 823 para 7.595 registros em quatro anos, um impacto econômico estimado em quase R$ 400 bilhões por ano em produtividade, ausências e rotatividade.

Os números já mostram a gravidade do problema. Mas o que é ainda mais alarmante é o tempo entre o início do esgotamento e o momento em que a empresa percebe”, afirma Tiago Santos, vice-presidente da Sesame HR. Para ele, o Brasil está diante de uma crise que os relatórios de RH ainda não sabem ler com a antecedência necessária. O que raramente aparece nesses relatórios é o intervalo invisível entre o início do esgotamento e o desligamento: semanas ou meses em que o colaborador ainda está presente, mas já não está produzindo, já não está engajado e já está, silenciosamente, procurando outra oportunidade. O Brasil já registra a maior taxa de rotatividade do mundo, com índices próximos a 56% ao ano, segundo levantamento da Robert Half com base no Caged. E a reposição de cada funcionário que sai pode custar entre 50% e 200% do seu salário anual, segundo a Society for Human Resource Management, considerando recrutamento, treinamento e perda de produtividade.

O problema estrutural, segundo Santos, está na ausência de indicadores antecipados. Pesquisas de clima aplicadas uma vez por ano capturam uma fotografia do passado, não o movimento em tempo real das equipes. Avaliações de desempenho conduzidas em ciclos longos perdem os sinais intermediários: queda de entrega, aumento de conflitos, afastamentos curtos repetidos, redução de participação. “São dados que existem dentro das empresas. O que falta é um processo para lê-los com a frequência e o método certos, antes que o esgotamento vire crise”, afirma.

A situação é agravada por outro dado: apenas 36% das empresas no Brasil adotam sessões regulares de feedback entre gestores e colaboradores, segundo levantamento do Ateliê RH. Outra pesquisa da Robert Half reforça: 26% dos profissionais brasileiros afirmam não receber nenhuma avaliação formal, e outros 19% consideram que as práticas atuais poderiam ser mais estruturadas. Sem esse canal, o colaborador em esgotamento não encontra espaço para sinalizar o problema, e o gestor não tem visibilidade para agir.

O perfil dos afastamentos torna o cenário ainda mais urgente. Os transtornos de ansiedade responderam por 86% dos casos de saúde mental entre 2023 e 2025, com crescimento de 92% no período, segundo a Associação Nacional de Medicina do Trabalho. Em paralelo, apenas 12% das empresas brasileiras oferecem acompanhamento psicológico como benefício, o que amplia a lacuna entre o problema identificado e o suporte disponível.

Para o especialista, a solução não está em criar novos programas de bem-estar, mas em transformar dados que as empresas já coletam em um processo estruturado de monitoramento contínuo. O caminho passa por acompanhar, com periodicidade mensal ou trimestral, quatro indicadores centrais: absenteísmo por setor, recorrência de afastamentos curtos, rotatividade por área e variação de engajamento ao longo do tempo. Cruzados de forma automatizada, o que hoje plataformas de gestão de pessoas já permitem fazer, esses sinais formam um sistema de alerta antecipado, capaz de identificar deterioração antes que ela vire afastamento ou desligamento. “O RH não precisa de mais dados, precisa de um processo para interpretar os que já tem. Quando a empresa usa a tecnologia para acompanhar clima e desempenho com regularidade, deixa de ser surpreendida pelo turnover e passa a agir antes da demissão”, conclui Santos.

Burnout cresceu 823% em quatro anos no Brasil