Cooperativismo do RS fatura R$ 103 bilhões e chega a 14% do PIB – O Rio Grande do Sul é o berço do cooperativismo de crédito na América Latina. A primeira cooperativa de crédito do continente foi fundada em 1902, na cidade de Nova Petrópolis, sob a liderança do padre suíço Teodor Amstad. Mais de um século depois, o modelo não apenas sobrevive no estado onde nasceu como ocupa posição central na economia gaúcha. Segundo o Sistema Ocergs, o cooperativismo representa hoje 14% do PIB do Rio Grande do Sul, reúne mais de 4,2 milhões de associados. Em 2025, a projeção de faturamento foi de R$ 103 bilhões – o montante pode ser ainda maior em 2026, segundo os especialistas. Em Pelotas, duas histórias mostram o que esses números significam na prática.
Willi Wetzel Junior e Angela With Retzlaff não planejavam empreender. Enfermeira recém-formada, Angela identificou no cuidado a pessoas idosas uma oportunidade de construir algo próprio com flexibilidade para a família que os dois estavam formando. Willi, enfermeiro também, entrou como sócio. O que começou como um projeto familiar tornou-se, em quinze anos, uma referência regional no cuidado com a pessoa idosa.
A Quinta Urbana abriu em 2009 com dez leitos. Hoje opera com 98 acomodações, área social com lago e jardins integrados e mais de 60 colaboradores. Willi acumula as funções de sócio do empreendimento e presidente do Conselho Municipal do Idoso de Pelotas. Parte desse crescimento ele atribui a uma decisão tomada antes mesmo de a empresa existir, ser cooperado.
A relação com a Unicred começou na vida pessoal, com financiamento de veículo e reforma da casa. Quando chegou a hora de expandir o negócio, a decisão foi buscar crédito onde já havia confiança. Com o plano de viabilidade em mãos, o casal apresentou o projeto à cooperativa. “Sem o crédito facilitado e as taxas atrativas, o negócio teria tido um crescimento lento e talvez não teria atingido a magnitude de hoje”, avalia Willi.
A parceria seguiu nos anos seguintes, com financiamento de equipamentos, inovações e painéis fotovoltaicos. A Quinta Urbana tornou-se referência e passou a influenciar outras instituições de cuidado ao idoso da região na adoção de melhores práticas. Para quem está começando, o conselho de Willi é ter familiaridade com o tema, planejar a viabilidade, buscar qualificação contínua e trabalhar.
A história do cirurgião dentista Ângelo Paulo Tomazini Ozelame com o cooperativismo começa numa feira, quase por acidente. Por volta de 2012, ele e um colega estavam na Fenadoce, em Pelotas, quando pararam num estande da Unicred. A conversa com o consultor foi boa e a adesão veio na sequência.
Desde então, o Dr. Ângelo acumulou experiências que ele mesmo usa para explicar por que indica a cooperativa para os colegas. Em uma ocasião, enfrentou um imprevisto financeiro durante uma viagem ao exterior e conseguiu resolver a situação remotamente com o apoio da equipe da cooperativa. Em outro momento, durante uma conversa de rotina com seu gerente de conta, percebeu que estava deixando de aproveitar benefícios compatíveis com seu perfil de investidor. A solução foi apresentada antes mesmo de ser pedida e chegou a tempo de uma viagem internacional planejada.
O que mais o entusiasma, porém, é a lógica por trás dessas experiências. Certa vez tentou conversar sobre investimentos numa instituição financeira tradicional de grande porte. “Eles não tinham ideia se eu queria falar de investimento. Queriam saber se eu queria financiamento. Chamaram outro atendente. Desisti.” Na cooperativa, a experiência foi diferente não porque o produto era melhor, mas porque havia alguém disposto a entender o que ele precisava antes de oferecer qualquer solução.
“No Brasil, a gente está acostumado com o ganha-ganha onde um tira fatia do outro. Aqui é o contrário. Quanto mais eu ganho, mais a cooperativa ganha. E quanto mais a cooperativa ganha, mais eu ganho suporte.”
As histórias de Willi e do Dr. Ângelo são diferentes em perfil e em contexto, mas ilustram um mesmo princípio. O modelo cooperativista opera com decisões tomadas localmente, por pessoas que conhecem o mercado em que atuam e têm incentivo direto para que o cooperado cresça.
O Dia Internacional do Cooperativismo é celebrado todo primeiro sábado de julho, por iniciativa da ONU e da Aliança Cooperativa Internacional. No Rio Grande do Sul, berço do movimento no continente, as histórias de Pelotas chegam como resposta concreta ao que a data representa: um modelo financeiro que cresce porque funciona, e funciona porque quem participa também é dono.
Cooperativismo do RS fatura R$ 103 bilhões e chega a 14% do PIB