Argentina escancara a religiosidade econômica dos liberais

Argentina escancara a religiosidade econômica dos liberais 

* Por Thiago Maurique

Mesmo com a realidade batendo à porta, economistas insistem na narrativa de sucesso das reformas promovidas por Javier Milei 

A conta invisível dos juros que todos pagam (e poucos ganham)
Thiago Maurique é jornalista e sócio do Valores do RS

Quando Javier Milei assumiu a presidência da Argentina, em dezembro de 2023, parte da intelligentsia liberal latino-americana celebrou o evento como o renascimento da fé de mercado. Think tanks, economistas de colunismo televisivo e até alguns acadêmicos europeus viram em Buenos Aires a chance de provar que o “Estado mínimo” seria a panaceia para as mazelas da região. O libertário argentino era uma espécie de profeta do ajuste, alguém disposto a fazer o que ninguém mais teria coragem: cortar, privatizar, dolarizar e enfrentar os sindicatos.

Dias atrás, entrevistei um desses representantes. Economista renomado de uma importante entidade empresarial gaúcha, não titubeou em elogiar o presidente argentino durante palestra para empresários da região onde moro –  donos de negócios que regionalmente parecem grandes, mas são pequenos se comparados aos gigantes que realmente ganham com o jogo liberal. 

O tal economista foi taxativo ao dizer que Milei teve a coragem de fazer as reformas que deveriam servir de exemplo para o Brasil. Recebeu aplausos efusivos, de uma classe que ainda não compreendeu o que representa o estado mínimo, ainda mais em uma região assolada por enchentes que escancaram a crise climática – outra consequência do liberalismo exacerbado que não acredita em preservação ambiental. 

O problema foi o timing. Não demorou uma semana para as notícias do colapso argentino furarem a barreira da imprensa tradicional brasileira, que, ao menos na economia, parece preferir morrer abraçada ao discurso. O experimento Milei virou uma parábola sobre fé econômica. 

Argentina escancara a religiosidade econômicaMesmo diante dos critérios liberais clássicos, como estabilidade de moeda, segurança jurídica e confiança do investidor, o governo ultraliberal fracassou rotundamente. As reservas internacionais evaporaram e a inflação, embora em queda estatística após a compressão da demanda, segue corroendo o poder de compra. A pobreza continua a afetar uma parcela gigante da população argentina – mas esse é um dado que parece satisfazer os defensores das políticas milenistas. 

A ironia é que, diante do colapso, o governo que prometia “enterrar o Estado” precisou pedir socorro justamente ao “papai Estado” – no caso, o dos Estados Unidos. Sem reservas e isolado de credores privados, Milei recorreu a Washington, onde encontrou interlocutores dispostos a negociar uma linha emergencial de apoio financeiro e político. A Casa Branca, por sua vez, enxerga a grande oportunidade de limitar a influência chinesa na região.

A mesma China que os liberais latino-americanos demonizam como exemplo de “capitalismo de Estado fracassado” mantém há décadas superávits comerciais, crescimento médio superior a 5% e uma rede industrial globalmente integrada. Enquanto a Argentina desmonta seu Estado e corre aos EUA por dólares, Pequim segue acumulando reservas acima de US$ 3 trilhões, financia infraestrutura no mundo todo e reduz pobreza em seu quintal.

O contraste é gritante. No altar liberal, a idolatria de Milei sobrevive mesmo depois da ruína concreta de suas promessas. O argumento é sempre moral, nunca empírico. Se não funcionou, é porque o ajuste foi “incompleto” ou “sabotado pelos estatistas”. É a mesma lógica de qualquer fé. Quando a realidade nega a profecia, culpa-se a falta de pureza dos fiéis.

A Argentina de 2025 é, portanto, mais do que uma crise econômica. É a prova de que o mercado não é uma religião e que seus profetas também recorrem ao Estado quando o dogma se choca com a realidade. O fracasso de Milei não é apenas político ou social. É teológico. 

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